A importância de um sono harmonioso
A sociedade atual exige que as pessoas realizem atividades muito variadas no dia-a-dia. Além do trabalho e dos estudos, entram em cena cursos de línguas, prática de esportes, saídas com amigos e familiares e é preciso estar antenado e bem informado, através dos meios de comunicação. Muitas vezes, para lidar com toda essa agenda, são sacrificadas algumas – e importantes – horas de sono. Dormir bem, no entanto, é fundamental para uma boa qualidade de vida. “Deve-se lidar com as exigências do cotidiano com muito bom senso. O sono é um processo em que o organismo entra em fase de recuperação, e sua privação, com o tempo, prejudica a função cognitiva, ocasiona perda de memória, afeta o humor e aumenta o risco de doença cardiovascular”, afirma a Dra. Luciana Palombini, coordenadora do Laboratório do Sono do Instituto do Sono, instituição ligada à Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Ela explica que o sono é dividido em cinco fases. Nas quatro primeiras, classificadas de sono não-REM, a atividade cerebral e a função respiratória tornam-se mais lentas, e o organismo descansa. Na última fase, chamada de REM (de rapid eye movement ou “movimento rápido dos olhos”), há uma importante atividade cerebral e ocorrem processos que ajudam a consolidar a memória. Além disso, diz a médica, é durante esta fase que grande parte dos sonhos acontece, especialmente aqueles de conteúdo mais profundo. “Durante o sono, o corpo descansa, mas há também a reciclagem de alguns sistemas do organismo”, afirma.
Por ser formado por esses vários processos, é importante que o sono não seja interrompido muitas vezes durante a noite. Se ocorrer essa fragmentação, haverá maior dificuldade em atingir o estágio de sono de ondas lentas e REM e, como resultado, a recuperação não será tão intensa quanto deveria ser.
Segundo a Dra. Luciana, acordar duas vezes na mesma noite, no entanto, não prejudica necessariamente o sono. No caso de pessoas com diabetes com registros importantes de hipoglicemia, deve ser feita uma consulta com endocrinologista para verificar os níveis de glicemia que ocorrem durante este período para avaliar a necessidade de intervenção. É preferível acordar e realizar a monitoração, para evitar a ocorrência de episódios noturnos. De acordo com a médica, as pessoas que acordam durante a noite podem ter um treinamento para que se acostumem a dormir logo em seguida. “Alguns têm dificuldade em dormir após acordar de madrugada. Nesse caso, a pessoa deve deixar a cama e retornar apenas quando o sono voltar, pois pode haver o desenvolvimento de insônia”, afirma.
Segundo a médica, a insônia é uma das duas doenças do sono de maior ocorrência. Além disso, é mais comum entre as mulheres, em uma proporção de dois para um em comparação aos homens, ou seja, para cada homem com insônia existem duas mulheres com insônia. Para os homens, o principal distúrbio é a apnéia do sono, caracterizada pela parada respiratória, acompanhada de ronco. Essa diferença entre os sexos deve-se a questões hormonais. “Até a menopausa, a mulher é protegida pela progesterona, hormônio que impede que a mulher tenha apnéia. Desse modo, até essa faixa etária, a apnéia do sono é cerca de duas vezes mais prevalente entre os homens do que entre as mulheres”, explica.
A médica diz ainda que, entre as pessoas que apresentam doenças do sono, há um número maior de queixas de problemas ligados à parte sexual. “Por exemplo, o paciente que ronca e tem apnéia tem um risco maior de desenvolver impotência”, afirma ela.
HORAS DE SONO
Segundo a Dra. Luciana, não existe um número fixo de horas de sono que deve ser seguido. Ela explica que, em média, a maior parte das pessoas dorme de sete a oito horas. Existem, no entanto, aqueles que necessitam de um número menor de horas, e aqueles que necessitam de mais. Essa variação é normal, sendo determinada por uma predisposição genética. “Alguns se sentem bem com apenas cinco horas de sono por dia, enquanto outros dormem até nove horas. Cada um tem sua necessidade específica”, afirma.
Para que cada pessoa durma a sua quantidade específica de horas, para que tenha o tempo de sono de que ela em particular precisa, devem-se cultivar alguns hábitos e abandonar outros – ou seja, praticar a chamada “higiene do sono”. A Dra. Luciana diz que é muito importante que sejam obedecidos horários regulares para dormir e acordar. Cochilos durante o dia são permitidos, mas em um máximo de 30 minutos, e apenas após o almoço. Também se devem evitar fazer ginástica, realizar atividades profissionais e consumir substâncias estimulantes imediatamente antes do sono. “O café, especialmente em pessoas sensíveis, pode ficar em ação por até oito horas”, diz a Dra. Luciana.
Ela explica que também há recomendações para a posição do corpo durante o sono. Uma delas é relativa à sustentação do pescoço, que deve ser feita geralmente com um travesseiro, para que as vias aéreas possam ficar abertas. Além disso, é desaconselhável dormir de bruços, porque isso pode ocasionar algum problema na coluna cervical. Para aqueles que têm apnéia, não é aconselhável dormir em posição supina (barriga para cima), sendo mais indicado deitar-se de lado.
DESENVOLVIMENTO DO DIABETES
Atualmente, várias pesquisas têm revelado uma ligação entre o sono desregrado e o desenvolvimento do diabetes. Em 2006, uma pesquisa sobre essa relação foi publicada no jornal médico Diabetes Care, da Associação Americana do Diabetes. Ela revelou que as pessoas estudadas que dormiam menos de cinco horas ou mais de oito por dia tinham maior chance de desenvolver a condição. “Essa conexão tem sido muito comentada. No último congresso norte-americano sobre sono, realizado em Minneapolis, foram apresentados vários trabalhos sobre a privação do sono e o diabetes”, afirma a Dra. Luciana.
“Existe a hipótese de que ocorre uma alteração do metabolismo quando acontece alguma alteração do sono, aumentando os níveis do hormônio cortisol, o que leva ao aumento dos níveis de insulina e, conseqüentemente, o surgimento da resistência à ação da mesma. Como resultado, seria observado um aumento da glicemia e da produção de partículas aterogênicas (substâncias que se depositam nas artérias, podendo causar a aterosclerose) e de triglicerídeos”, afirma o Dr. Márcio Mancini, médico do Serviço de Endocrinologia e Metabologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP).
Ele diz que existem algumas pesquisas que demonstram que a privação do sono aumenta o risco de obesidade e, conseqüentemente, do diabetes tipo 2. Além disso, o especialista alerta que o sono em horários irregulares pode ter como conseqüência a redução da liberação do hormônio de crescimento. Nessa situação, haveria um acúmulo maior de gordura. “Não se sabe, no entanto, se esse fenômeno é causa ou conseqüência da obesidade. Alguns consideram que, com um nível menor do hormônio de crescimento, há uma perpetuação do estado de obesidade”, comenta.
Segundo ele, para as pessoas que já têm diabetes tipo 2 ou tipo 1, o sono desregrado poderia ajudar a desregular a condição. Ele explica que, quando o diabetes está bem controlado, a simples variação de horas de sono entre um dia e outro pode ocasionar variações glicêmicas, sendo esse mais um motivo para a manutenção de hábitos equilibrados de sono. Deve-se procurar sempre adormecer e despertar mais ou menos no mesmo horário, proporcionando o tempo exato de descanso de que cada organismo necessita.